quinta-feira, 30 de maio de 2013


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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Os problemas que aparecem com a negação da inerrância bíblica são muito significativos  e, quando entendemos a magnitude desses problemas, isso nos dá o encorajamento adicional não somente para afirmar a inerrância, mas também para garantir sua importância para a igreja. Alguns dos problemas mais sérios são os listados a seguir:

a.Se negarmos a inerrância, deparamos com um sério problema moral: Podemos imitar  Deus e intencionalmente mentir nas pequenas coisas também? Efésios 5.1 nos diz que  sejamos imitadores de Deus. Mas a negação de inerrância que ainda alega que as   6  palavras da Escritura são palavras sopradas por Deus necessariamente leva à conclusão  de que Deus intencionalmente falou falsamente para nós em algumas das afirmações menos centrais da Escritura. Mas, se para Deus é correto agir assim, como pode ser errado para nós? Tal linha de raciocínio, se crêssemos nela, exerceria grande pressão sobre nós para que começássemos a falar inverdades em situações onde poderiam parecer de ajuda em nossa comunicação, e assim por diante. Essa posição seria uma ladeira escorregadia com resultados negativos sempre crescentes em nossa vida.

b.Segundo, se a inerrância é negada, começamos a pensar se realmente podemos confiar em Deus em qualquer coisa que ele venha a dizer.
Uma vez que nos convençamos de que Deus nos falou de maneira falsa em alguns assuntos de menor importância na Escritura, percebemos que Deus é capaz de nos falar falsamente. Isso ocasionará um efeito prejudicial sério sobre a nossa capacidade de levar Deus a sério em sua palavra e confiar nele completamente ou obedecer a ele plenamente no restante da Escritura. Podemos começar a desobedecer inicialmente nas seções da Escritura que menos desejaríamos obedecer, e desconfiar inicialmente das seções nas quais estaríamos menos inclinados a confiar. Mas tal procedimento finalmente se expandirá, para grande prejuízo de nossa vida espiritual. 

c. Terceiro, se negarmos a inerrância, essencialmente faremos da mente o padrão de verdade mais alto que a própria Palavra de Deus.
Usamos nossa mente para estabelecer juízo sobre algumas partes da Palavra de Deus e as pronunciamos como contendo erros. Mas isso é, de fato, dizer que conhecemos a verdade com mais certeza e mais exatidão que a própria Palavra de Deus (ou que Deus), ao menos nessas áreas. Tal procedimento, que torna nossa mente o padrão mais alto de verdade que a Palavra de Deus, é a raiz de todo o pecado intelectual.

d.Quarto, se negarmos a inerrância, devemos também dizer que a Bíblia esta errada não somente nos detalhes menos importantes, mas igualmente em algumas de  suas doutrinas.  A negação da inerrância significa dizermos que o ensino da Bíblia a respeito da natureza
da Escritura e a respeito da veracidade e confiabilidade das palavras de Deus também é falso. Esses não são pequenos detalhes, e sim preocupações doutrinárias muito importantes na Escritura.

e. A Palavra de Deus escrita é a nossa autoridade final. É importante perceber que a forma final na qual a Escritura é cheia de autoridade é a forma escrita. Foram as palavras de Deus escritas em tábuas de pedra que Moisés depositou na arca da aliança.
Mais tarde, Deus ordenou a Moisés e subseqüentemente aos profetas para escreverem suas palavras em um livro. Foi a Palavra de Deus escrita que Paulo disse ser ”inspirada” (gr. graphē em 2Tm 3.16). Isso é importante porque as pessoas às vezes (de forma intencional ou não) tentam substituir as palavras escritas da Escritura por algum outro padrão final. Por exemplo, elas se referem ao “que Jesus realmente disse” e afirmam que, quando traduzimos as palavras gregas dos evangelhos para a língua aramaica que Jesus falou, podemos obter entendimento melhor das palavras de Jesus do que foi dado pelos escritores dos evangelhos. Em outros casos, há quem alegue conhecer ”o que Paulo realmente pensava” mesmo quando esse conhecimento é diferente do significado das palavras que ele escreveu. Ou falam do “que Paulo teria dito se ele tivesse sido coerente com o restante de sua teologia”. De modo semelhante, outras pessoas falam da “situação da igreja à qual Mateus está escrevendo” e tentam dar força normativa tanto para essa situação como para a solução que pensam que Mateus estava tentando produzir nessa situação.
Em todos esses exemplos, devemos admitir que perguntar a respeito das palavras ou situações que estão por trás do texto da Escritura pode, às vezes, ser útil para nós no entendimento do que o texto significa. Não obstante, nossas reconstruções hipotéticas dessas palavras ou situações podem nunca substituir ou competir com a própria Escritura como a autoridade final, nem devemos permitir que contradigam ou levantem dúvidas sobre a exatidão de qualquer das palavras da Escritura. Devemos continuamente relembrar que temos na Bíblia as verdadeiras palavras de Deus, e não podemos tentar “melhorá-las” de algum modo, pois isso não pode ser feito. Ao contrário, devemos procurar entendê-las e, então, confiar nelas e obedecer a elas de todo o nosso coração. 

Embora as posições indesejáveis listadas acima estejam logicamente relacionadas à negação da inerrância, uma Palavra de advertência se faz necessária: nem todos que negam a inerrância adotarão também as conclusões indesejáveis mencionadas. Algumas pessoas (provavelmente de modo incoerente) negarão a inerrância, mas não caminharão para esses passos lógicos. Em debates sobre a inerrância, como em outras discussões teológicas, é importante que critiquemos as pessoas com base nas idéias que elas realmente sustentam e que distingamos claramente essas idéias das posições que pensamos que elas sustentam, para ver se estas estão de acordo com as próprias idéias afirmadas.

Autor:  Wayne Grudem.
Fonte: Teologia Sistemática do autor, Ed. Vida Nova. Compre este livro em
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terça-feira, 30 de abril de 2013





Por Wayne Grudem 

Existe algum papel a ser desempenhado pelos estudiosos da Bíblia ou por aqueles com
conhecimento especializado em hebraico (para o AT) e em grego (para o NT)? Certamente há uma função para eles em ao menos quatro áreas.


Primeiro, eles podem ensinar a Escritura com muita clareza, comunicando o seu conteúdo a outros, e assim cumprem o ofício de ”mestre”, que é mencionado no NT (lCo 12.28; Ef 4.11).


Segundo, eles podem explorar novas áreas para o entendimento dos ensinos da Escritura. Essa exploração raramente envolverá a negação dos principais ensinos que a igreja tem sustentado através dos séculos; muitas vezes, no entanto, envolverá a aplicação da Escritura a novas áreas da vida, em resposta às questões difíceis que têm sido levantadas tanto por crentes como por não-crentes em cada novo período da história, bem como a contínua atividade de refinar e tornar mais preciso o entendimento da igreja dos pontos detalhados de interpretação de versículos isolados ou de assuntos de doutrina ou de ética.


Terceiro, eles podem defender os ensinos da Bíblia contra os ataques de outros estudiosos ou daqueles com treinamento técnico especializado. O papel de ensino da Palavra de Deus às vezes envolve a correção de falsos ensinos. Uma pessoa deve ser capaz não somente de “encorajar outros pela sã doutrina”, mas também de “refutar os que se opõem a ela” (Tt 1.9; 2Tm 2.25: “Deve corrigir com mansidão os que se lhe opõem...”; e Tt 2.7,8). Algumas vezes, os que atacam os ensinos bíblicos têm treinamento especializado e conhecimento técnico em estudos históricos, lingüísticos ou filosóficos e usam esse preparo para montar ataques sofisticados contra o ensino da Escritura. Em tais casos, os crentes com habilidades especializadas semelhantes podem usar seu preparo para entender e responder a tais ataques. 


Em última análise, eles podem suplementar o estudo da Escritura para o benefício da igreja. Estudiosos da Bíblia muitas vezes têm o preparo que os capacitará a relacionar os ensinos da Escritura à rica história da igreja e a tornar a interpretação da Escritura mais precisa, bem como o seu significado mais vívido, relacionado ao conhecimento maior das línguas e culturas nas quais a Bíblia foi escrita.

Essas quatro funções beneficiam a igreja como um todo, e todos os crentes devem ser
agradecidos por aqueles que as realizam. Contudo, essas funções não incluem o direito de
decidir pela igreja como um todo qual é a verdadeira ou falsa doutrina, ou qual é a conduta
adequada para uma situação difícil. Se tal direito de preservação fosse dos estudiosos da Bíblia formalmente treinados, então eles se tornariam a elite governante na igreja, e o funcionamento ordinário do governo da igreja, como descrito no NT, cessaria de existir. O processo de tomar decisões pela igreja deve ser deixado aos oficiais da igrejas, sejam eles estudiosos ou não (e, nas igrejas onde há a forma congregacional de governo, não somente aos oficiais, mas também às pessoas da igreja como um todo). 

Fonte: Teologia Sistemática do Autor; Ed. Vida Nova
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sexta-feira, 26 de abril de 2013


 

 Por Wayne Grudem 
 
 3. As palavras de Deus são o padrão supremo de verdade.

Em João 17, Jesus ora ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo17.17). Esse versículo é interessante porque Jesus não usa um adjetivo, alēthinos oualēthēs (“verdadeira”), que era o esperado, para dizer que a ”tua palavra é a verdade”.
Ao contrário, ele usa um substantivo, alētheia (“verdade”), para dizer que a Palavra de Deus não é simplesmente “verdadeira”, mas é a própria verdade.
A diferença é significativa, porque essa afirmação nos encoraja a pensar na Bíblia não simplesmente como “verdadeira” no sentido em que a conformamos ao padrão mais alto de verdade, mas, antes, encoraja-nos a pensar da Bíblia como ela própria o padrão final de verdade. A Bíblia é a Palavra de Deus, e a Palavra de Deus é a definição última do que é verdadeiro e do que não é verdadeiro: a Palavra de Deus, em si mesma, é a verdade. Assim, devemos pensar na Bíblia como o padrão último da verdade, o ponto de referência pelo qual qualquer outra alegação de veracidade possa ser medida.As declarações que se conformam à Escritura são “verdadeiras”, ao passo que as que não se conformam à Escritura não o são.
Então, o que é a verdade? A verdade é o que Deus diz, e temos o que Deus diz (exatamente, não exaustivamente) na Bíblia.
Essa doutrina da veracidade absoluta da Escritura permanece em contraste claro com a concepção comum na sociedade moderna que muitas vezes é chamada pluralismo.
O pluralismo é o pensamento de que cada pessoa tem uma perspectiva sobre a verdade que é tão válida como a perspectiva de outra pessoa qualquer — portanto, não devemos dizer que a religião ou o padrão ético de outra pessoa esteja errado. De acordo com o pluralismo, não podemos conhecer a verdade absoluta; podemos somente ter perspectivas e expectativas próprias. Naturalmente, se o pluralismo é verdadeiro, a Bíblia não pode ser o que ela declara ser: as palavras que o único e verdadeiro Deus, o criador e juiz de todo o mundo, nos tem falado.
O pluralismo é um aspecto do pensamento contemporâneo global do mundo chamado pós-modernismo. O pós-modernismo não sustentaria simplesmente que nunca podemos encontrar a verdade absoluta; ele diria que a verdade absoluta não existe. Todas as tentativas de afirmar a verdade em uma ou em outra idéia são justamente o resultado de nossa origem, cultura, tendências, projetos pessoais (especialmente nosso desejo de poder). Tal visão do mundo, é claro, opõe-se diretamente à visão bíblica, que vê a Bíblia como verdade que nos foi dada da parte de Deus.

4. Podem alguns fatos novos contradizer a Bíblia?

Poderá qualquer novo fato científico ou histórico que venha a ser descoberto contradizer a Bíblia? Aqui podemos dizer com confiança que isso nunca acontecerá é algo impossível. Se qualquer “fato” suposto for descoberto que seja considerado contrário à Escritura, então (se entendemos a Escritura corretamente) tal “fato” deve ser falso, porque Deus, o autor da Escritura, conhece todos os fatos verdadeiros (passados, presentes e futuros). Nenhum acontecimento inesperado aparecerá do qual Deus não tenha tido conhecimento no passado e que não tenha levado em conta quando fez a Escritura ser escrita. Cada fato verdadeiro é algo que Deus já conhecia desde toda a eternidade e, portanto, não poderia contradizer as palavras de Deus na Escritura.
Não obstante, deve ser lembrado que o estudo científico ou histórico (assim como outras espécies de estudo da criação) pode fazer-nos reexaminar a Escritura para ver se ela realmente ensina o que pensamos que ela ensinava. Por exemplo, a Bíblia não ensina que o sol gira ao redor da terra só porque ela usa descrições dos fenômenos como os vemos de nossa perspectiva, nem pretende descrever as operações do universo de algum ponto “fixo” arbitrário em algum lugar no espaço. Todavia, até o estudo da astronomia ter avançado o suficiente para demonstrar a rotação da terra sobre o próprio eixo, as pessoas presumiam que a Bíblia ensinava que o sol girava ao redor da terra. Assim, o estudo dos dados científicos levou ao reexame dos textos bíblicos apropriados. Portanto, todas as vezes que confrontados algum “fato” que parece contradizer a Escritura, devemos não somente examinar os dados apresentados para demonstrar o fato em questão; devemos também reexaminar os textos bíblicos apropriados para ver se a Bíblia realmente ensina o que pensamos que ela ensina. Podemos fazer isso com confiança, pois nenhum fato verdadeiro jamais contrariará as palavras do Deus que conhece todos os fatos e que nunca mente.

Autor: Wayne Grudem
Fonte: Teologia Sistemática do Autor; Ed. Vida Nova. 
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Por Wayne Grudem 
1. Deus não pode mentir ou falar falsamente.

A essência da autoridade da Escritura é a sua capacidade de compelir-nos a crer nela e a obedecer-lhe, tornando tal crença e obediência equivalentes a crer e a obedecer ao próprio Deus. Porque as coisas são assim, é necessário considerar a veracidade da Escritura, pois, se pensamos que algumas partes da Escritura não são verdadeiras, naturalmente não seremos capazes de crer nelas.
Visto que os escritores bíblicos repetidamente afirmam que as palavras da Bíblia, embora humanas, são as próprias palavras de Deus, é apropriado olhar para os textos bíblicos que falam a respeito do caráter das palavras de Deus e aplicá-los ao caráter das palavras da Escritura. Especificamente falando, há certo número de passagens bíblicas que falam a respeito da veracidade da fala de Deus. Tito 1.2 declara que “Deus que não mente”. Porque Deus é um Deus que não pode falar mentiras, suas palavras são sempre confiáveis. Visto que toda a Escritura é falada por Deus, toda a Escritura deve ser verdadeira, como Deus o é. Não pode haver nada que não seja verdadeiro na Escritura. Hebreus 6.18 menciona duas coisas imutáveis (o juramento e a promessa de Deus) “nas quais é impossível que Deus minta”. Aqui o autor não diz meramente que Deus não mente, mas que é impossível para ele mentir. Embora a referência imediata seja somente o juramento e as promessas, se é impossível para Deus mentir nessas declarações, então certamente é impossível para ele mentir.

2. Portanto, todas as palavras da Escritura são completamente verdadeiras e sem erro em qualquer parte.
Visto que as palavras da Bíblia são as palavras de Deus, e visto que Deus não pode mentir ou falar falsamente, é correto concluir que não há nada inverossímil nem nenhum erro em qualquer parte das palavras da Escritura. Encontramos isso afirmado em diversos lugares da Escritura. “As palavras do SENHOR são puras, são como prata purificada num forno, sete vezes refinada” (Sl 12.6).Aqui o salmista usa uma figura vivida para falar da indissolúvel pureza das palavras de Deus; não há nenhuma imperfeição nelas. Também Provérbios 30.5 diz: “Cada palavra de Deus é comprovadamente pura; ele é um escudo para quem nele se refugia”. Isso não se diz apenas de algumas das palavras da Escritura, mas de todas elas. De fato, a Palavra de Deus está firmada no céu por toda a eternidade: “A tua palavra, SFNH0R,para sempre está firmada nos céus” (Sl 119.89). Jesus pode falar da natureza eterna de suas palavras: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão” (Mt 24.35). Esses versículos afirmam explicitamente o que estava implícito na exigência de que creiamos em todas as palavras da Escritura, a saber, que não há nada que não seja verdadeiro ou que seja falso afirmado em qualquer das declarações da Bíblia. 

Fonte: Teologia Sistemática do Autor; Ed. Vida Nova. 
leia a parte 2: http://areformahoje.blogspot.com.br/2013/04/a-veracidade-da-escritura-part-2-wayne.html 
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quinta-feira, 25 de abril de 2013


 A  Bíblia  não  é  um  livro  qualquer.  A  origem  dela  está  em  Deus,  que  falou  através  de homens separados para registrar sua Palavra. Sabemos que a questão do caráter humano das  Escrituras  é  algo  acidental  ou  periférico:  os  homens  escolhidos  por  Deus  para registrar  as  Escrituras  eram  pessoas  de  carne  e  osso,  que  viveram  em  determinado período  histórico  enfrentando  problemas  específicos.  Não  há  lugar  para  nenhum docetismo:  os  autores  secundários  tiveram  um  papel  ativo  e  passivo.  No  entanto, devemos  também  acentuar,  e  este  é  o  nosso  ponto  neste  texto  [1],  que  o  Espírito chamou seus servos, revelou a si mesmo e sua mensagem, dirigiu, inspirou e preservou os registros feitos por esses homens. Como afirmou Gerard Van Groningen:  

O  Espírito  Santo  habitou  em  certos  homens,  inspirou-os,  e  assim  dirigiu-os  que eles,  em  plena  consciência,  expressaram-se  na  sua  singular  maneira  pessoal. O Espírito capacitou homens a conhecer e expressar a verdade de Deus. Ele impediu-os  de  incluir  qualquer  coisa  que  fosse  contrária  a  essa  verdade  de  Deus.  Ele também  impediu-os  de  escrever  coisa  que  não  eram  necessárias.  Assim,  homens escreveram como homens, mas, ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não a do homem [2].  

Essa  compreensão,  que  advém  das  próprias  Escrituras,  caracteriza  distintamente  o cristianismo:  os  profetas  não  falaram  aleatoriamente  o  que  pensavam;  antes, “testificaram  a  verdade  de  que  era  a  boca  do  Senhor  que  falava  através  deles”  [3].

Sobre essa questão Calvino declarou: 
Eis  aqui  o  principio  que  distingue  nossa  religião  de  todas  as  demais,  ou  seja: sabemos que Deus nos falou e estamos plenamente convencidos de que os profetas não falaram de si próprios, mas que, como órgãos do Espírito Santo, pronunciaram somente aquilo para o qual foram do céu comissionados a declarar. Todos quantos desejam beneficiar-se das Escrituras devem antes aceitar isto como um principio estabelecido, a saber: que a lei e os profetas não são ensinos passados adiante ao bel-prazer  dos  homens  ou  produzidos  pelas  mentes  humanas  como  uma  fonte, senão que foram ditados pelo Espírito Santo [4].  

Nas Escrituras temos todos os livros que Deus quis  que fossem preservados para nossa edificação: 
Aquelas [epístolas] que o Senhor quis que fossem indispensáveis à sua Igreja, Ele as consagrou por sua providência para que fossem perenemente lembradas. Saibamos, pois,  que  o  que  foi  deixado  nos  é  suficiente,  e  que  sua  insignificância  não acidental; senão que o cânon das Escrituras, o qual se encontra em nosso poder, foi mantido sob controle através do grandioso conselho de Deus [5].  

Nota: 
[1]  Veja,  para  uma  perspectiva  mais  ampla,  Hermisten  M.  P.  Costa,  Inspiração  e inerrância  das  Escrituras:  uma  perspectiva  reformada,  Casa  Editora  Presbiteriana
(www.cep.org.br) 
[2] Revelação messiânica no Velho Testamento, p. 64-65. 
[3] João Calvino, As pastorais, p. 262. 
[4]  As  Pastorais,  p.  262.    E  outro  lugar  Calvino  diz  que  os  apóstolos  foram  “certos  e autênticos amanuenses do Espírito Santo” (As institutas, IV.8.9). No entanto, devemos entender que Calvino usa essa expressão não para sustentar o “ditado” divino, mas para demonstrar que os apóstolos não criaram da própria imaginação sua mensagem, antes a receberam diretamente do Espírito. Ou seja, ele se refere ao resultado do registro, não ao processo em si. Entedia que Moisés escreveu os cinco livros da Lei “não somente sob a orientação do Espírito do Deus, mas porque Deus mesmo os tinha sugerido, falando-lhes com palavras de sua própria boca” (Calvin’s Commentaries, vol. III, p. 328).
 [5]João Calvino, Efésios, p. 86, Editora Parakletos

Fonte: Fundamentos da teologia reformada, pg. 42-44, Editora Mundo Cristão.
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terça-feira, 23 de abril de 2013

Calvino contra o ateísmo [ 1.3.1-3 ]


Do Livro 1, Capítulo 3

“Como o declara aquele pagão [Cícero], não há nenhuma nação tão bárbara, nenhum povo tão selvagem, no qual não esteja profundamente arraigada esta convicção: Deus existe!” (1.3.1, p.47)

Por que todas as culturas e povos adotam algum tipo de religião? A resposta, para Calvino, é simples. É algo que ele chama de “semente da religião”, uma noção geral da Divindade implantada pelo próprio Criador. É irônico, mas a idolatria torna-se uma das provas de que há um Deus.
“Ora, para que ninguém se refugiasse no pretexto de ignorância, Deus mesmo infundiu em todos certa noção de sua divina realidade, da qual, renovando constantemente a lembrança, de quando em quando instila novas gotas.” (idem)

Porém, esse não é o tipo de conhecimento que nos leva à salvação. Pelo contrário, transforma-se em condenação, ao tornar os homens inexcusáveis. Isto é, ninguém pode apresentar a desculpa de “eu não sabia que existia um Deus”. Essa idéia é desenvolvida por Paulo nos primeiros capítulos de Romanos, ao demonstrar que os pagãos não poderão levantar esse argumento no dia do julgamento.
Portanto, a base para a responsabilidade do homem (como é bastante enfatizado pelo filósofo e teólogo Gordon Clark) é o conhecimento, e não a liberdade. Isso nos será importante mais para frente.
“Como todos à uma reconhecem que Deus existe e é seu Criador, são por seu próprio testemunho condenados, já que não só não lhe rendem o culto devido, mas ainda não consagram a vida a sua vontade.” (idem)

Com isso, o reformador nega qualquer possibilidade de um ateísmo real. Isso me lembra o caso de um amigo meu, que se diz agnóstico. Ao falar de certo temor que eu tinha, perguntei se em momentos de desespero ele é mais ateu ou mais crédulo. “Nessas horas sou crente”, respondeu.
“Pois, ainda que no passado tenham existido alguns, e hoje eles não são poucos, que neguem existir Deus, contudo, queiram ou não queiram, de quando em quando acode-lhes certo sentimento daquilo que desejam ignorar.” (1.3.2, p.48)

Por mais que o ser humano deseje, terá dificuldade em libertar-se da verdade implantada em sua mente. Seria exagero comparar a batalha dos ateus superstars contra a fé à luta de Quixote contra os moinhos, mas não podemos negar que a situação é parecida. A cada conversão ao ateísmo milhões de “fiéis” nascem por toda a terra.
“Donde concluímos que esta não é uma doutrina que se aprende na escola, mas que cada um, desde o ventre materno, deve ser mestre dela para si próprio, e da qual a própria natureza não permite que alguém esqueça, ainda que muitos há que põem todo seu empenho nessa tarefa” (1.3.3, p.49)

Para Calvino, ao contrário do que afirma Christopher Hitchens, a religião não envenena tudo, mas evita que o homem torne-se semelhante às criaturas que deveria dominar. Negar a existência de Deus é negar a imagem divina no homem, algo que vemos atualmente com bastante frequência. Não é incomum vermos especialistas (em alguma coisa) compararem o homem a uma máquina em busca de sexo e poder, a um animal mais esperto ou algo pior. Isso não é simplesmente uma metáfora. Para muitos, realmente é isso que somos.

“Os homens, uma vez que a religião lhes seja ausente da vida, não só em nada excedem aos animais, mas até em muitos aspectos lhes são muito mais dignos de lástima, porquanto, sujeitos a tantas espécies de males, levam de contínuo uma vida tumultuária e desassossegada. Portanto, o que nos faz superiores é tão-somente o culto de Deus, mediante o qual se aspira à imortalidade.” (1.3.3, p.50)

fonte: http://joaocalvino.net/2009/01/calvino-contra-o-ateismo-1-3-1-3/
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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mais Doutrina, Mais Cristo por Herman Hoeksema


Muitos em nossos dias encontram a causa de toda a dissensão e divisão na igreja em muita doutrina e em credos que são muito específicos em suas declarações doutrinárias. Eles advogam que todas essas declarações específicas de fé, pelas quais cada igreja erige um muro de separação ao redor de si mesma, devem ser esquecidas, apagadas e eliminadas; que as confissões devem ser alargadas e generalizadas; e que sobre a base de tal ampla declaração de princípios gerais, as várias denominações devem se mesclar, e assim concretizar a unidade da igreja. Contudo, deve ser evidente que nessa forma, uma unidade externa pode ser deveras eficaz, mas somente à custa da verdade e à custa da fé da igreja, que é o mesmo que dizer que é uma unidade sem o Cristo da Escritura. A igreja não está interessada numa unidade externa que revela a si mesma numa instituição altamente humana.. 
 
A unidade da igreja está centrada em Cristo. Se a igreja há de crescer nessa verdadeira unidade, ela deve crescer em Cristo. Ela não deve ter menos de Cristo, mas sempre mais. E seu Cristo está nas Escrituras. Por conseguinte, ela deve apropriar o Cristo da Santa Escritura, o que significa que ela deve instruir e ser instruída na verdade. Ela não deve buscar união no caminho de menos, mas no caminho de mais rica e mais doutrina. Ela deve não somente colocar de lado as doutrinas de homens, sem dúvida, mas ela deve também crescer sempre na doutrina de Cristo. Que a verdadeira igreja seja sempre pequena no mundo! Todavia, ela não ousa buscar a realização da sua unidade em qualquer outra direção senão na do crescimento no conhecimento de Cristo, seu cabeça, até que “todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4:13). Somente aqueles que estão se esforçando para se aproximar dessa estatura é que estão realmente trabalhando para a manifestação da unidade da igreja, e tudo quanto for mais do que isso é do maligno.

Herman Hoeksema
Reformed Dogmatics, Vol. 2  
Extraido de: Monergismo
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Filosofia e Religião - Francis Schaeffer



 Deixe-me agora fazer duas observações genéricas. Primeiro, a filosofia e a religião lidam com as mesmas questões básicas. Os cristãos, especialmente os cristãos evangélicos, tendem  a  esquecer-se  disso.  A  filosofia  e  a  religião  não  tratam  de  questões  diferentes, embora dêem explicações diferentes e usem terminologia diferenciada. As questões básicas, tanto  da  filosofia  quanto  da  religião  (e  estou  me  referindo  à  religião  no  sentido  lato, incluindo o Cristianismo), são as questões do Ser (isto é, do que existe), do homem e seu dilema (da moral), da epistemologia (de como o homem adquire conhecimento). A filosofia lida com estes pontos,  mas o mesmo acontece com  a religião, incluindo o “Cristianismo evangélico ortodoxo”.

A segunda observação genérica refere-se aos dois sentidos da palavra filosofia, que  precisam manter-se completamente separados, se quisermos evitar confusões. O primeiro sentido é o da disciplina, um tópico do currículo acadêmico. Essa é a idéia que geralmente associamos  à  filosofia:  um  estudo  altamente  técnico  que  poucas  pessoas  são  capazes  de acompanhar.  Neste  sentido,  poucos  são  filósofos.  Mas  há  um  segundo  sentido  que  não devemos esquecer, se quisermos entender o problema da pregação do evangelho no mundo do século 20. Pois a filosofia também significa a visão de mundo de alguém

Neste sentido, todos  somos  filósofos,  pois  todos  temos  uma  visão  de  mundo.  Isso  vale  tanto  para  o homem cavando uma vala quanto para o filósofo na universidade.
Os cristãos têm tendido a desprezar o conceito de filosofia. Esta tem sido uma das fraquezas  do  Cristianismo  evangélico  ortodoxo  –  temos  nos  vangloriado  em  nosso
desprezo  à  filosofia  e  nos  orgulhado  excessivamente  da  condenação  de  tudo  quanto  diz respeito  ao  intelecto.  Nossos  seminários  teológicos  dificilmente  fazem  qualquer  relação entre  a  sua  teologia  e  a  filosofia,  principalmente  no  que  diz  respeito  à  filosofia contemporânea. Assim, os estudantes formam-se nos seminários teológicos sem a mínima noção de como relacionar o Cristianismo às visões de mundo a seu redor. Não que eles não saibam  respostas.  Pelo  que  tenho  observado,  a  maioria  dos  estudantes  que  se  tornam bacharéis em seminários teológicos desconhecem as perguntas. Na verdade, a filosofia é universal no seu escopo. Nenhum ser humano é capaz de viver sem uma visão de mundo; por isso, não há ser humano que não seja um filósofo.

Fonte:  O  Deus  que  se  Revela,  Francis  Schaeffer,
Editora Cultura Cristã, p. 41-42.
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